Rafucko entrevista Polícia Civil

Semana passada, recebi uma intimação da Polícia Civil para prestar esclarecimentos sobre um processo do qual eu não tinha conhecimento. O número estava no topo da página, mas ligar para a delegacia para descobrir sobre o que se tratava seria um mero exercício de curiosidade, já que estava certo de que não havia quaisquer esclarecimentos a serem prestados por mim a polícia nenhuma.

Enquanto esperava o dia e hora do depoimento, fui juntando as peças que se apresentavam à minha frente. O que eu descobri, relato abaixo:

Um processo interno da Polícia Civil foi aberto contra o delegado Orlando Zaconne, que assistiu à performance “1º UPP – Prêmio de Protestos” em novembro do ano passado. O “crime” cometido por Zaccone ao assistir a performance artística teria sido o de “prevaricação”, quando um agente da lei presencia uma contravenção e nada faz. Mas qual seria a contravenção? O uso de um manequim roubado da Toulon (os manequins receberam o prêmio de “Maior Ato de Vandalismo”). A denúncia de que o artista teria feito interceptação de um objeto de roubo foi feita por este homem:

Reinaldinho escreve para o veículo de ficção "VEJA"

Reinaldinho escreve para a revista de ficção “VEJA”

A Polícia Civil, muito corretamente, levou a cabo as investigações, não sobre Reinaldo e sua lucidez/confiabilidade, mas sobre este outro homem:

Intimadíssima, Rafucko ficou pê da vida.

Intimadíssima, a mídiativista Rafucko ficou pê da vida.

É um humorista, um ativista, um videomaker ou apenas uma bicha vlogueira? Sim.
Rafucko não se deixou intimidar e fez o que qualquer pessoa que preza pela liberdade faria em um momento tão difícil como este: se vestiu de Ana Maria Braga e chamou azamiga tudo pra ir com ele fazer um auê na Corregedoria da Pol. Clica o play e acooooooooorda, menina!

O vídeo  ̶a̶t̶i̶n̶g̶i̶u̶ ̶1̶ ̶m̶i̶l̶h̶ã̶o̶ ̶d̶e̶ ̶v̶i̶s̶u̶a̶l̶i̶z̶a̶ç̶õ̶e̶s̶ ̶a̶p̶ó̶s̶ ̶s̶e̶r̶ ̶r̶e̶t̶i̶r̶a̶d̶o̶ ̶d̶o̶ ̶a̶r̶ ̶p̶e̶l̶a̶ ̶G̶l̶o̶b̶o̶ rodou a high society ativista carioca e muita gente mostrou apoio nas redes sociais!

ATENÇÃO: ler somente os dois primeiros tweets (não consegui cortar o print, tô no cel)

ATENÇÃO: ler somente os dois primeiros tweets (não consegui cortar o print, tô no cel)

Rafucko pensou em ignorar a intimação, pois desde pequeno adora ser desobediente. Porém, o castigo que os titios da Polícia Civil ameaçaram lhe dar era um pouco mais grave que algumas palmadas (aliás, antes fosse, rs… mas isso assunto pra outra hora!). Se tem duas coisas que ele odeia elas são: passas no arroz e ser privado de sua liberdade!

Auxiliado por vários advogados (que lhe diziam “não faça isso!”), Rafucko compareceu à delegacia vestido assim:

William Bonner Sexy posa ao lado do Presidente (foto: Carmen Astrid)

William Bonner Sexy aposta em look ousado: meia-calça “arrastão” e military boots. Aqui, ele posa ao lado do Presidente (foto: Carmen Astrid)

William Bonner Sexy foi impedido de entrar no prédio com as pernocas à mostra, mas argumentou que a intimação não especificava o dress-code para a ocasião. Depois de 30 minutos, pôde entrar para ser interrogado com uma calça balonê azul, que não compôs o look. A pedido do artista, não iremos reproduzir aqui as fotos deste momento.

A Polícia fez uma investigação exemplar: o exame de DNA provou que o manequim que compareceu à premiação não era o mesmo manequim violentado na noite de 17 de julho no Leblon. Os manequins violentados na Toulon eram negros.

manequim

Manequim espelhado que compareceu à premiação (à esquerda) e manequins agredidos no Leblon (à direita) não eram da mesma família, segundo laudo do IML.

A ossada de Amarildo, os autores dos tiros que mataram Cláudia Ferreira, o dançarino Douglas, e as outras milhares de vítimas fatais da UPP ainda não foram encontrados e, ignorando tudo isso, o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro lançou uma campanha contra o extermínio da população de manequins negros.

O Secretário de Genocídio do Rio de Janeiro lançou campanha pelo fim do extermínio de seres inanimados (foto: Divulgação)

O Secretário de Genocídio do Rio de Janeiro lançou campanha pelo fim do extermínio de seres inanimados (foto: Divulgação)

Rafucko foi questionado acerca do 1º UPP – Prêmio de Protestos, mas disse ao delegado que preferia permanecer em silêncio, por não se sentir confortável em prestar esclarecimentos sobre uma performance artística à Polícia.
Aproveitando o gancho da campanha de arrecadação de fundos para produção do seu próprio Talk-Show (já apoiou? é simples, rápido, e faz bem pra pele!), o desobediente e provocativo sósia do sagrado William Bonner fez perguntas à Polícia Civil na frente do prédio, para um grupo de mídiativistas. Segue a entrevista, que pode ser respondida pela Polícia Civil ou pelo delegado Felipe Bettencourt do Vale a qualquer momento. Este humilde blog se põe à disposição para a divulgação de suas respostas:

 
Vídeo feito pelo MIC – Mídia Independente Coletiva e Linha de Frente Audiovisual

Uma das fãs que acompanhou o pronunciamento empunhava um iPhone e perguntou ao menino que estava do seu lado: “quem é ele? Ele é famoso?”. A resposta foi negativa.

O jornalista do jornal O Dia ligou para a Polícia Civil – veja só que curioso, ainda há jornalistas que apuram os fatos, coisa rara hoje em dia! – para questionar sobre a intimação feita a Rafucko. Vejam a frase final desta matéria:

Procurada pela reportagem do BLOG LGBT, a Polícia Civil informou que houve um erro material na expedição do documento enviado ao artista, que deveria ser um convite e não uma intimação.

A declaração gerou desconfiança na internet, mas me sinto no dever de informar que, de fato, a Polícia não estava mentindo. Fizeram questão de corrigir o erro e a seguinte correspondência chegou aqui em casa hoje:

"Era pra ser um convite, mas porque queríamos tanto a sua presença, enviamos uma intimação!", disse o chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso.

“Era pra ser um convite, mas porque queríamos tanto a sua presença, enviamos uma intimação!”, disse o chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso.

Por fim, segue o texto do pronunciamento, na íntegra:

“A arte é conduta atípica.”

Lá dentro, me mantive em silêncio, porque acredito que tenho poucas respostas a dar para a Polícia Civil. Entretanto, tenho muitas perguntas:

O Rio de Janeiro tem uma das polícias que mais mata no Brasil – e no mundo! Quantas investigações estão sendo feitas sobre este fato neste momento? Quantas já foram julgadas?

O ex-governador Sérgio Cabral é notório mandante de vários crimes contra a população. Por que nem ele nem ninguém da sua quadrilha de Secretários foi intimado a prestar qualquer esclarecimento?

A internet está cheia de páginas que apóiam e promovem a violência policial. Quantas destas páginas são alvo de investigações da Polícia Civil? Quantos administradores já foram intimados para prestar esclarecimentos?

Hoje, em pleno 2014, eu fui intimado – e intimidado – a vir neste prédio anexo do antigo DOPS para prestar esclarecimentos sobre uma performance artística, a partir de uma denúncia feita… pela Revista VEJA.

Mas não se trata de uma denúncia qualquer! O colunista mentiroso Reinaldo de Azevedo me acusou de “interceptação”. Disse que eu teria usado um manequim roubado da Toulon na performance “Prêmios de Protesto”, onde ironizei a distorção patética do governo do Rio e da mídia durante os protestos de 2013. Durante a “premiação”, um manequim inanimado recebeu o prêmio de “Maior Ato de Vandalismo”, porque, em julho de 2013, a quebra de uma loja no Leblon causou mais comoção na cúpula de segurança do RJ do que a retirada de vidas humanas na favela da Maré uma semana antes. Foi a imaginação fértil – ou a cegueira ideológica – deste nada confiável colunista, nesta nada confiável revista, que me trouxe aqui hoje.

Inclusive, o fato da gente estar aqui hoje, nesta situação, é MAIS UMA PROVA de que a Polícia continua se preocupando mais com os manequins da Toulon do que com os corpos humanos estendidos no chão das favelas.

Repudio publicamente esta investigação patética da Corregedoria da Polícia Civil, a acusação infundada e criminosa da Revista VEJA, e a conivência e cumplicidade do Secretário de Segurança José Mariano Beltrame, do governador Pezão e da presidenta da República Dilma Rousseff.

Se você parar pra refletir, você vai perceber que esta guerra que estamos vivendo não é contra as drogas, mas contra os pobres. Traficantes do morro e policiais não são lados opostos. Eles são o mesmo lado, o único lado cuja morte é aceitável para a nossa sociedade, para a nossa mídia. Os policiais, assim como os traficantes, são em sua maioria negros, pobres, e moram em comunidades. Enquanto eles se matam entre si, os verdadeiros fornecedores – e proibidores – das drogas voam de helicóptero e transitam livremente no Senado, na Câmara e nas Assembleias Legislativas.

Se você parar pra se informar, você vai ver que esta guerra não é contra vândalos, mas contra as pessoas que querem mudanças reais. O número de crimes cometidos pelas polícias militares durante as manifestações nunca foi exatamente registrado, divulgado e nem julgado. No ano passado, muitos brasileiros puderam experimentar nas ruas uma amostra do que é a violência nas favelas. Mas, como vimos ontem, no coração do Rio, as balas que acertam os favelados não são de borracha. E fica cada vez mais claro que a polícia brasileira não detém apenas o monopólio da violência. Ela detém o monopólio do crime.

E pra você que tá sentado no sofá, achando que tá tudo bem, eu sinto lhe dizer, mas esta guerra é contra você! E ela vai chegar até você, porque a nossa mídia trabalha para justificar os crimes de polícias e governos.

Pra não dizer que trouxe apenas problemas e nenhuma solução, eu reuni uma lista de veículos de comunicação alternativa para a Policia Civil se informar melhor, e parar de usar a VEJA como fonte, pois é de meu interesse que esta instituição volte a fazer investigações realmente relevantes para o bem-estar do nosso país. Delegado, eu recomendo que você procure as páginas do coletivo Rio na Rua, do jornal A Nova Democracia, da Midia NINJA, do Mídia Independente Coletiva, da Assembleia do Largo, do Voz das Ruas, do Coletivo Mariachi, do CEMI… Tem informação bacana também num tal de Rafucko.com.

Aliás, se tiverem uma graninha sobrando, apoiem o crowdfunding do meu Talk Show!

E pra quem está me ouvindo agora, eu faço um apelo:

Rebele-se! É legítimo! É legal! E, neste momento, é extremamente necessário!

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Sobre Rafael

Roteirista | Videomaker | VJ | | Writer | Videomaker | VJ

Publicado em abril 25, 2014, em RAFUCKO.JPG, RAFUCKO.MOV, RAFUCKO.TXT e marcado como , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 32 Comentários.

  1. Rafucko Eu te amo! So nao te peço em casamento pq eu ja sou casada, sorry, kkkkkkkkkkkkkk

  2. Gabriel Sartori

    Rafucko Eu te amo! So nao te peço em casamento pq eu não sou gay, sorry, kkkkkkkkkkkkkk

  3. Parabéns! Gostaria de destacar que mesmo com frente à tantos absurdos, poucos foram os que também responsabilizaram diretamente a presidente pelo o que tem acontecido. Ela finge que não é com ela e ninguém fala disso também…

  4. rafucko vc é o melhor rebelde sem calças de todos!!!

  5. Rapaz, mandou bem! Acho que é assim que a polícia deve ser tratada: com ironia.

  6. Ps: Belas pernas Rafucko hahahha

  7. Fernando Oliveira

    Rapaz ! Você é muito bom ! Parabéns ! Sua mãe deve ter muito orgulho de você …

  8. Podia perguntar como anda as investigações sobre umas tais VIGAS DA PERIMETRAL!

  9. Rafucko te amo e diferente da Paula não sou casada, então case-se comigo <3 ….

  10. Genial, parabens!

  11. Ana Luiza Wiezzer

    Você é genial!!! kkkkkkkkkkkk

  12. Monica Clemente

    kkkkkkkkkkkkkkkkkk, arrasou!!! Quer dizer, arrastão!!!

  13. Caramba, hein, nunca achei que viveria pra ver uma coisa triste dessas, imagina se essa moda de levar as “denúncias” do rola-bosta a sério pega? Todo mundo que usar vermelho vai em cana.

  14. AMEI TUDO.

  15. os espertalhões jogam os pobres contra os pobres

  16. REFUCKO EU TE AMOOOOOOOOOOO

  17. João Luiz Mattoso

    CORAJOSO, VERDADEIRO E ATUALIZADO. SHOW DE SABEDORIA !

  18. Sensacional. Temos que inverter essa lógica perversa, admiro muito seu trabalho!

  19. Leandro Bueno Mamari

    Graças à Deus existem pessoas como você! A suas colocações neste pronunciamento foram perfeitas, irretocáveis. Parabéns!

  20. Maciel R Correa

    Bandidos oficiais pagos com dinheiro público e bandidos sustentados com ausência do poder público….

  21. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK RINDO DO “CONVITE”.

    Rafucko, adorei sua coragem! Arrasou!

  22. Como você faz para ser tão engraçado?

  23. Isso aí!!! tem meu respeito e meu apoio!!
    coragem e insurgencia!!

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