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Bobo da corte

Um pouco antes da Copa, fui convidado pelo Ministério de Relações Exteriores da Alemanha para participar de uma conferência sobre “Megaeventos e Democracia”. Fui vestido assim (foto): traje típico alemão e glitter prateado em toda a pele. O porquê dessa roupa eu só expliquei ao fim do workshop – e explico ao fim deste texto também.

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Comecei a apresentação falando dos Bobos da Corte. Eles eram os únicos que podiam dar más notícias e até zombar de membros da corte sem terem suas cabeças cortadas. Depois, tracei um panorama do Brasil de junho de 2013 até junho de 2014, passando pelas pautas dos protestos, pela repressão promovida pelos governos e pelo empenho da mídia em chamar manifestantes de “vândalos”. Exibi alguns vídeos, os de verdade e os meus (a plateia sempre ria mais dos originais, achei super engraçado).

Faltando 5 minutos para o fim, mostrei um slide com os danos que a empresa alemã Tyssen Krupp causa ao meio-ambiente no estado do Rio de Janeiro. A usina siderúrgica é responsável por uma chuva de prata, altamente tóxica. Não tem licença ambiental, e mesmo assim funciona a todo vapor, com subsídios do governo do Rio. Disse aos participantes e aos membros do Ministério que assim, vestido de alemão prateado, era a forma que eu tinha encontrado de passar essa mensagem de forma mais efetiva, e sem o risco de ter minha cabeça cortada (a Tyssen Krupp patrocinava o evento, rs). Foi super bem recebida a intervenção, preciso dizer…

(ah, sim: no dia seguinte teve um banquete no castelo do Cônsul em Santa Teresa. A Tyssen que ofereceu o buffet – e tava uma delícia)

Aqui tem mais informações: http://paretkcsa.blogspot.com.br/

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Auto-crítica: tem, mas acabou

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Anteontem, fui ao comício pró-Dilma lembrar aos artistas da omissão e participação da presidenta em episódios de repressão inaceitáveis a protestos populares.
Muitos me chamaram de “coxinha”, um termo pejorativo pra chamar alguém de conservador. Outros diziam que eu “tava pedindo pra levar umas porradas”. Poucos fizeram o exercício da auto-crítica.
Um detalhe do meu personagem, o PM, é que ele enxergava de olhos fechados (na foto dá pra ver o detalhe). Quanto mais vocês me agridem, quanto mais tornam o Rafucko o centro da questão, pra evitar falar daquele ponto inicial, a repressão a protestos populares (e greves) promovidas pelo PT e seus aliados Brasil afora, mais vocês se assemelham ao meu personagem que, cá entre nós, era um PALHAÇO.

Respeito todas as formas de crença, sejam as religiosas ou as políticas. Mas a paixão por um partido, um pastor ou pelo poder, pode fazer você acreditar que está enxergando quando seus olhos estão, na verdade, muito bem fechados.

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Cartaz que o PM empunhava durante comício.

Querido diário, hoje foi assim:

Querido diário,

hoje eu não fui ao protesto contra a “Corrida do Soldado Cruel” porque era muito cedo. Cedi ao sono.
Fiquei sabendo que foram 10 pessoas. O BOPE correu. Deve ter corrido.
Nos comentários dos meus vídeos tão discutindo se policial pode ou não pode matar.
O Maluf postou no twitter “direitos humanos para humanos direitos”, risos.
Aliás, à tarde eu fui no ato anti-homofobia em Copacabana. Marcado pras 14h, mas só às 16h ia sair. Tava meio vazio, viado prefere bronzeado a direitos humanos. Fui embora quando começaram a caminhar, tava cheio de fome. Fui comer, num árabe. Tava uma delícia. Sabe quando você tá com tanta fome e morde a língua com muita força? Tá doendo até agora.
Na volta não consegui entrar no metrô. No caminho, muitos carros de polícia correndo, com sirene ligada. Um deles parou num ponto de ônibus e intimidou um monte de moleque sentado. Todos pretos. Coincidência, imagino.
Cheguei no Feice e a Giovana Antonelli tinha postado uma foto tirada de um apartamento na Av. Vieira Souto. Um monte de gente amontoada nas areias de Ipanema. Ela disse que viu uns 5 arrastões em 3h. Mais tarde, fez outro post, relatando SETE arrastões. Caramba, a Giovanna Antonelli passou a tarde contando arrastão num apê na Praia de Ipanema. Ela usou as hashtags #vergonha #eleições e #tristeza.
Aí eu tô aqui, nesse fim de domingo (odeio!), pensando no BOPE, no Maluf, nos viados mortos e nos viados bronzeados, na Giovanna Antonelli, em Ipanema e em Copacabana, no amanhã…
Amanhã eu vou protestar contra a presidenta. Tô preparando uns cartazes. Acho que vai ser legal. Vai ser estranho, mas vai ser legal. A minha língua ainda tá doendo.

Por mim entrava agora a voz do Cid Moreira falando “O SHOW DA VIDA” e eu acordava logo amanhã. Ah, o amanhã…

Assista também:

A corrida do soldado cruel

Rafucko Presidente

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Lancei minha candidatura à Presidência da República. Confira o site da campanha!

Confira o Programa de Governo

Confira o Manifesto do PBTM – Partido Bom pra Todo Mundo
Há quem diga que o voto em Rafucko é um voto nulo. De fato, as urnas eletrônicas não exibirão meu jovem rosto quando você digitar 01 – elas exibirão uma tela em branco, onde você pode ver o seu reflexo. Logo depois, exibirá a palavra FIM.

Minha primeira proposta de governo é trocar esta palavra, que julgo equivocada. Depois do meu mandato, as urnas exibirão “INÍCIO” ao fim da votação, para que todo eleitor se lembre que a eleição não é um fim em si, mas somente o começo das mudanças que nós todos almejamos.

Ao votar em mim, você vota em você.
Nós para presidentes!

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Bandeira do PBTM – Partido Bom pra Todo Mundo

Uma mulher vendendo cobertor no Shoptime por 15 minutos

"Liga logo que tá acabando o turquesa, porra!"

“Liga logo que tá acabando o turquesa, porra!”

Ontem liguei no Shoptime e assisti a uma mulher vendendo um cobertor por 15 minutos. Abaixo, relato tudo o que vi.

“Gente, liga agora. Ainda tem o verde! Olha que tudo! É muuito lindo, a cama fica um convite! Flannel King tem uma textura deliciosa e acompanha o movimento da mão! A gente tenta fazer metáforas pro pessoal aí de casa entender… parece um ursinho. Parece a careca de Naná, nosso diretor. Parece a pele de Jesus, eu não tô brincando! E olha o tamanho… cabe a família inteira. Você pode fazer uma panquequinha com todos os parentes naquele dia gelaaado. Aí você tá em casa pensando, “ah, Marília, eu quero levar meu flannel pra montanha… dá pra levar? Dá pra levar! Ele é super fácil de levar, olha aqui, é só dobrar e tá pronto pra levar pra montanha, pra praia… fica uma delícia essa microfibra com os grãozinhos de areia grudadinhos, arranhando a pele… Tem o verde, olha que cor classuda. Tem o turquesa, só tem duas unidades, liga rápido! Tem esse marrom-bosta, pro quarto do filhão que você gosta menos… Mas tem que ligar agora, que senão a promoção acaba. E acaba mesmo, hein, não acha que a gente vai te dar uma colher de chá, não… Se você perder a promoção exclusiva dessa sexta-feira, rodou. Não vem ligar depois chorando miséria não, hein, seu escroto. Liga logo, porra! Eu tô vendo que você não tá ligando, seu merda. Pega essa porra desse telefone… isso… e liga pra gente, caralho! Isso, pianinho, pega esse telefone, agora pede… pede a porra do Flanel King. Issssso… pode parcelar em até três vezes de R$59,90, tá? Pediu? Ele pediu, diretor? Pediu de qual cor? O marrom? O turquesa? Pediu o turquesa, uma ótima escolha! Agora só tem uma unidade do turquesa, hein, gente! Mas ainda tem o verde, olha que tudo! Liga…”

Delegado-vidente estreia coluna de horóscopo

Conforme prometido, estreia hoje a coluna de horóscopo civil escrita pelo delegado Fernando Veloso. Na coluna de hoje, Veloso interpreta a influência dos astros no protesto que acontece logo mais, às 17h, em frente ao TJ-RJ, em repúdio ao estado de exceção que vive hoje o Rio de Janeiro.

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ÁRIES (de 20/03 a 20/04)

Você deve priorizar os protestos que envolvem outras pessoas e fortalecer o senso de equipe. Convém ficar atento, pois a equipe de hoje pode ser a quadrilha de amanhã.

TOURO (de 21/04 a 20/05)

Prisão preventiva dos taurinos é a tendência de hoje. Fase importante para escolher caminhos alternativos, de desfazer hoje o feito ainda não-feito de amanhã.

GÊMEOS (de 21/05 a 20/06)

Dia que favorece o entendimento afetivo e também as soluções criativas, querido geminiano. Se for preso durante o protesto, saberá perdoar o policial que forjou flagrante.

CÂNCER (de 21/06 a 21/07)

Dia muito importante para compreender a dinâmica de seu comportamento emocional. Apresente-se na delegacia mais próxima para saber se a raiva vai se tornar crime logo mais.

LEÃO (de 22/07 a 22/08)

A presença da Lua no signo oposto ao seu caracteriza um dia voltado ao conhecimento permitido pelo governo. Momento oportuno para jogar fora jornais de esquerda e livros anarquistas. Dia positivo.

VIRGEM (de 23/08 a 22/09)

Fase importante para o trabalho onde você pode agir com mais inovação e criatividade. Sabe aquele Pinho Sol que estava guardado na dispensa? Ele pode ser usado como prova contra você, já que Saturno na casa 8 deixa a perícia um pouco menos cuidadosa.

LIBRA (de 23/09 a 22/10)

Dia amplamente favorável aos librianos que sabem obedecer às ordens do governo. Nesse período você poderá contar com o apoio das pessoas para realizar os seus objetivos. Não será preso nos próximos dias.

ESCORPIÃO (de 23/10 a 21/11)

Momento importante para compreender o seu comportamento psicológico e emocional, que será responsável pelos atos ilícitos que você, caro leonino, fará no próximo mês. Conte com auxílio terapêutico para se conhecer melhor e mudar suas atitudes.

SAGITÁRIO (de 22/11 a 21/12)

A intuição, inteligência e a capacidade de comunicação ajudam a realizar projetos importantes. É hora de obediência e reflexão: quando um agente policial bater em sua porta, faça o que ele manda.

CAPRICÓRNIO (de 22/12 a 21/01)

Dia que favorece uma conciliação onde antes havia problemas. Momento de agir de forma mais companheira e amigável, capricorniano. Que tal tirar um tempo de suas férias para visitar os amigos na cadeia? Não me parece uma má ideia…

AQUÁRIO (de 21/01 a 18/02)

A Lua está em seu signo em um aspecto complicado com os planetas Vênus e Marte. Dia pouco favorável aos aquarianos que vão às ruas protestar. Policiais corruptos estarão a postos, é tempo de introspecção e cárcere privado.

PEIXES (de 19/02 a 19/03)

Excelente período para compreender as origens do seu comportamento emocional. Use o tempo de reclusão para reavaliar o que fez ou iria fazer de errado.

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O Chefe de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Fernando Veloso, é o primeiro delegado oficialmente apto a prever crimes e distúrbios da ordem.

Para ditar a liberdade: Entrevista com Rafucko

Rafucko entrevista Polícia Civil

Semana passada, recebi uma intimação da Polícia Civil para prestar esclarecimentos sobre um processo do qual eu não tinha conhecimento. O número estava no topo da página, mas ligar para a delegacia para descobrir sobre o que se tratava seria um mero exercício de curiosidade, já que estava certo de que não havia quaisquer esclarecimentos a serem prestados por mim a polícia nenhuma.

Enquanto esperava o dia e hora do depoimento, fui juntando as peças que se apresentavam à minha frente. O que eu descobri, relato abaixo:

Um processo interno da Polícia Civil foi aberto contra o delegado Orlando Zaconne, que assistiu à performance “1º UPP – Prêmio de Protestos” em novembro do ano passado. O “crime” cometido por Zaccone ao assistir a performance artística teria sido o de “prevaricação”, quando um agente da lei presencia uma contravenção e nada faz. Mas qual seria a contravenção? O uso de um manequim roubado da Toulon (os manequins receberam o prêmio de “Maior Ato de Vandalismo”). A denúncia de que o artista teria feito interceptação de um objeto de roubo foi feita por este homem:

Reinaldinho escreve para o veículo de ficção "VEJA"

Reinaldinho escreve para a revista de ficção “VEJA”

A Polícia Civil, muito corretamente, levou a cabo as investigações, não sobre Reinaldo e sua lucidez/confiabilidade, mas sobre este outro homem:

Intimadíssima, Rafucko ficou pê da vida.

Intimadíssima, a mídiativista Rafucko ficou pê da vida.

É um humorista, um ativista, um videomaker ou apenas uma bicha vlogueira? Sim.
Rafucko não se deixou intimidar e fez o que qualquer pessoa que preza pela liberdade faria em um momento tão difícil como este: se vestiu de Ana Maria Braga e chamou azamiga tudo pra ir com ele fazer um auê na Corregedoria da Pol. Clica o play e acooooooooorda, menina!

O vídeo  ̶a̶t̶i̶n̶g̶i̶u̶ ̶1̶ ̶m̶i̶l̶h̶ã̶o̶ ̶d̶e̶ ̶v̶i̶s̶u̶a̶l̶i̶z̶a̶ç̶õ̶e̶s̶ ̶a̶p̶ó̶s̶ ̶s̶e̶r̶ ̶r̶e̶t̶i̶r̶a̶d̶o̶ ̶d̶o̶ ̶a̶r̶ ̶p̶e̶l̶a̶ ̶G̶l̶o̶b̶o̶ rodou a high society ativista carioca e muita gente mostrou apoio nas redes sociais!

ATENÇÃO: ler somente os dois primeiros tweets (não consegui cortar o print, tô no cel)

ATENÇÃO: ler somente os dois primeiros tweets (não consegui cortar o print, tô no cel)

Rafucko pensou em ignorar a intimação, pois desde pequeno adora ser desobediente. Porém, o castigo que os titios da Polícia Civil ameaçaram lhe dar era um pouco mais grave que algumas palmadas (aliás, antes fosse, rs… mas isso assunto pra outra hora!). Se tem duas coisas que ele odeia elas são: passas no arroz e ser privado de sua liberdade!

Auxiliado por vários advogados (que lhe diziam “não faça isso!”), Rafucko compareceu à delegacia vestido assim:

William Bonner Sexy posa ao lado do Presidente (foto: Carmen Astrid)

William Bonner Sexy aposta em look ousado: meia-calça “arrastão” e military boots. Aqui, ele posa ao lado do Presidente (foto: Carmen Astrid)

William Bonner Sexy foi impedido de entrar no prédio com as pernocas à mostra, mas argumentou que a intimação não especificava o dress-code para a ocasião. Depois de 30 minutos, pôde entrar para ser interrogado com uma calça balonê azul, que não compôs o look. A pedido do artista, não iremos reproduzir aqui as fotos deste momento.

A Polícia fez uma investigação exemplar: o exame de DNA provou que o manequim que compareceu à premiação não era o mesmo manequim violentado na noite de 17 de julho no Leblon. Os manequins violentados na Toulon eram negros.

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Manequim espelhado que compareceu à premiação (à esquerda) e manequins agredidos no Leblon (à direita) não eram da mesma família, segundo laudo do IML.

A ossada de Amarildo, os autores dos tiros que mataram Cláudia Ferreira, o dançarino Douglas, e as outras milhares de vítimas fatais da UPP ainda não foram encontrados e, ignorando tudo isso, o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro lançou uma campanha contra o extermínio da população de manequins negros.

O Secretário de Genocídio do Rio de Janeiro lançou campanha pelo fim do extermínio de seres inanimados (foto: Divulgação)

O Secretário de Genocídio do Rio de Janeiro lançou campanha pelo fim do extermínio de seres inanimados (foto: Divulgação)

Rafucko foi questionado acerca do 1º UPP – Prêmio de Protestos, mas disse ao delegado que preferia permanecer em silêncio, por não se sentir confortável em prestar esclarecimentos sobre uma performance artística à Polícia.
Aproveitando o gancho da campanha de arrecadação de fundos para produção do seu próprio Talk-Show (já apoiou? é simples, rápido, e faz bem pra pele!), o desobediente e provocativo sósia do sagrado William Bonner fez perguntas à Polícia Civil na frente do prédio, para um grupo de mídiativistas. Segue a entrevista, que pode ser respondida pela Polícia Civil ou pelo delegado Felipe Bettencourt do Vale a qualquer momento. Este humilde blog se põe à disposição para a divulgação de suas respostas:

 
Vídeo feito pelo MIC – Mídia Independente Coletiva e Linha de Frente Audiovisual

Uma das fãs que acompanhou o pronunciamento empunhava um iPhone e perguntou ao menino que estava do seu lado: “quem é ele? Ele é famoso?”. A resposta foi negativa.

O jornalista do jornal O Dia ligou para a Polícia Civil – veja só que curioso, ainda há jornalistas que apuram os fatos, coisa rara hoje em dia! – para questionar sobre a intimação feita a Rafucko. Vejam a frase final desta matéria:

Procurada pela reportagem do BLOG LGBT, a Polícia Civil informou que houve um erro material na expedição do documento enviado ao artista, que deveria ser um convite e não uma intimação.

A declaração gerou desconfiança na internet, mas me sinto no dever de informar que, de fato, a Polícia não estava mentindo. Fizeram questão de corrigir o erro e a seguinte correspondência chegou aqui em casa hoje:

"Era pra ser um convite, mas porque queríamos tanto a sua presença, enviamos uma intimação!", disse o chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso.

“Era pra ser um convite, mas porque queríamos tanto a sua presença, enviamos uma intimação!”, disse o chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso.

Por fim, segue o texto do pronunciamento, na íntegra:

“A arte é conduta atípica.”

Lá dentro, me mantive em silêncio, porque acredito que tenho poucas respostas a dar para a Polícia Civil. Entretanto, tenho muitas perguntas:

O Rio de Janeiro tem uma das polícias que mais mata no Brasil – e no mundo! Quantas investigações estão sendo feitas sobre este fato neste momento? Quantas já foram julgadas?

O ex-governador Sérgio Cabral é notório mandante de vários crimes contra a população. Por que nem ele nem ninguém da sua quadrilha de Secretários foi intimado a prestar qualquer esclarecimento?

A internet está cheia de páginas que apóiam e promovem a violência policial. Quantas destas páginas são alvo de investigações da Polícia Civil? Quantos administradores já foram intimados para prestar esclarecimentos?

Hoje, em pleno 2014, eu fui intimado – e intimidado – a vir neste prédio anexo do antigo DOPS para prestar esclarecimentos sobre uma performance artística, a partir de uma denúncia feita… pela Revista VEJA.

Mas não se trata de uma denúncia qualquer! O colunista mentiroso Reinaldo de Azevedo me acusou de “interceptação”. Disse que eu teria usado um manequim roubado da Toulon na performance “Prêmios de Protesto”, onde ironizei a distorção patética do governo do Rio e da mídia durante os protestos de 2013. Durante a “premiação”, um manequim inanimado recebeu o prêmio de “Maior Ato de Vandalismo”, porque, em julho de 2013, a quebra de uma loja no Leblon causou mais comoção na cúpula de segurança do RJ do que a retirada de vidas humanas na favela da Maré uma semana antes. Foi a imaginação fértil – ou a cegueira ideológica – deste nada confiável colunista, nesta nada confiável revista, que me trouxe aqui hoje.

Inclusive, o fato da gente estar aqui hoje, nesta situação, é MAIS UMA PROVA de que a Polícia continua se preocupando mais com os manequins da Toulon do que com os corpos humanos estendidos no chão das favelas.

Repudio publicamente esta investigação patética da Corregedoria da Polícia Civil, a acusação infundada e criminosa da Revista VEJA, e a conivência e cumplicidade do Secretário de Segurança José Mariano Beltrame, do governador Pezão e da presidenta da República Dilma Rousseff.

Se você parar pra refletir, você vai perceber que esta guerra que estamos vivendo não é contra as drogas, mas contra os pobres. Traficantes do morro e policiais não são lados opostos. Eles são o mesmo lado, o único lado cuja morte é aceitável para a nossa sociedade, para a nossa mídia. Os policiais, assim como os traficantes, são em sua maioria negros, pobres, e moram em comunidades. Enquanto eles se matam entre si, os verdadeiros fornecedores – e proibidores – das drogas voam de helicóptero e transitam livremente no Senado, na Câmara e nas Assembleias Legislativas.

Se você parar pra se informar, você vai ver que esta guerra não é contra vândalos, mas contra as pessoas que querem mudanças reais. O número de crimes cometidos pelas polícias militares durante as manifestações nunca foi exatamente registrado, divulgado e nem julgado. No ano passado, muitos brasileiros puderam experimentar nas ruas uma amostra do que é a violência nas favelas. Mas, como vimos ontem, no coração do Rio, as balas que acertam os favelados não são de borracha. E fica cada vez mais claro que a polícia brasileira não detém apenas o monopólio da violência. Ela detém o monopólio do crime.

E pra você que tá sentado no sofá, achando que tá tudo bem, eu sinto lhe dizer, mas esta guerra é contra você! E ela vai chegar até você, porque a nossa mídia trabalha para justificar os crimes de polícias e governos.

Pra não dizer que trouxe apenas problemas e nenhuma solução, eu reuni uma lista de veículos de comunicação alternativa para a Policia Civil se informar melhor, e parar de usar a VEJA como fonte, pois é de meu interesse que esta instituição volte a fazer investigações realmente relevantes para o bem-estar do nosso país. Delegado, eu recomendo que você procure as páginas do coletivo Rio na Rua, do jornal A Nova Democracia, da Midia NINJA, do Mídia Independente Coletiva, da Assembleia do Largo, do Voz das Ruas, do Coletivo Mariachi, do CEMI… Tem informação bacana também num tal de Rafucko.com.

Aliás, se tiverem uma graninha sobrando, apoiem o crowdfunding do meu Talk Show!

E pra quem está me ouvindo agora, eu faço um apelo:

Rebele-se! É legítimo! É legal! E, neste momento, é extremamente necessário!

A Humanidade ainda não fracassou.

prefeitura-fila

O movimento LGBT, que diz lutar por Direitos Humanos, não estava lá ontem.

Os professores, que pediram apoio da população quando fizeram greve, não estavam lá ontem.

Os garis, que comoveram as redes sociais durante a greve, não estavam lá ontem.

As igrejas, essas instituições que pregam o amor ao próximo, nenhuma delas estava lá ontem.

A Rede Globo, a Band, o SBT e a Record, e alguns sindicatos, todos deram uma passadinha, mas nenhum estava lá ontem.

Nenhum movimento organizado estava lá ontem.

Havia apenas algumas dezenas de indivíduos, uns poucos advogados e midialivristas, todos completamente consternados pelo cenário desolador das famílias desabrigadas. Há 3 dias dormindo sob chuva, feitos de idiotas pelos assistentes sociais da Prefeitura, que tiravam “selfies” (a nova moda!) enquanto centenas de pessoas eram informadas de que não poderiam mais se cadastrar naquela noite – o expediente acabou! Não conseguiram pegar a SENHA, para então voltar nos dias seguintes e fazer um CADASTRO, para então esperarem meses, anos, sabe-se lá quantas eleições, por um teto para morar.

Na internet, li algumas discussões. São invasores? São vagabundos? Havia assaltos! Deveriam ser ladrões…

Ninguém lembrava que eram humanos. Poucos viam os bebês de 2 meses de idade, as crianças que brincavam com seus próprios dejetos absorvidos nas malhas de suas roupas, as senhoras com os pés descalços e os homens e mulheres que não tinham outra opção a não ser aquilo ali, a mais baixa situação de dignidade que eu já presenciei na minha vida.

O Batalhão de Choque, sempre tão covarde, expulsou as famílias de dentro da passarela do Metrô Rio, propriedade pública que eles insistiam que era privada (o único teto que havia ali, diga-se de passagem). É de uma crueldade escatológica jogar aquela gente, que já nada tem, no chão molhado, para terem menos ainda.

Ontem foi um dia em que me senti completamente demente. Fiquei paralisado enquanto uma mulher, chorando e tremendo, dizia que o Choque ia jogar (mais) pimenta nas suas crianças. Tive ataque de riso quando percebi que as doações que chegavam não supririam a necessidade de um terço daquelas pessoas. Decidi ficar pra assistir, mesmo sem bateria no celular, quando o Choque e a Guarda Municipal cercavam os desabrigados e causavam alvoroço. Me vi, mais de uma vez, sem querer, no lugar de decidir quem ali iria beber água potável e quem ficaria sem.

A Humanidade não fracassou, como alguns ali faziam questão de frisar. Fomos para um poço sem fundo, é bem a verdade, mas ao olhar para aquelas centenas de guerreiros e guerreiras das mais variadas idades, a última palavra que me vinha à cabeça era fracasso.

Vem aí…

Vem aí...

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